Praça Luíza Távora: desenvolvimento para quem e a que custo?
Recebo
com preocupação as informações de que parte da Praça Luíza Távora poderá ser
impactada pelas obras da futura estação do metrô. Se as denúncias apresentadas
por ambientalistas e moradores se confirmarem, estaremos diante de mais um
episódio que revela uma contradição recorrente em muitas cidades brasileiras: a
falsa escolha entre mobilidade urbana e preservação ambiental.
Quero
deixar claro desde o início que sou favorável à expansão do transporte público
de qualidade. Fortaleza e sua região metropolitana precisam de mais metrô,
VLTs, corredores de ônibus e alternativas sustentáveis ao transporte
individual. O combate aos congestionamentos, à poluição e às desigualdades de
acesso à cidade passa necessariamente pelo fortalecimento do transporte
coletivo.
O
problema surge quando uma obra concebida para melhorar a qualidade de vida
acaba comprometendo justamente aquilo que torna a cidade mais humana.
A Praça
Luíza Távora não é apenas um terreno vazio disponível para intervenções. Ela é
um patrimônio afetivo, cultural e ambiental de Fortaleza. Ali convivem
crianças, adolescentes, idosos, trabalhadores, artistas, feirantes e famílias.
É um espaço de encontro em uma cidade cada vez mais marcada pelo isolamento,
pelo concreto e pela lógica dos automóveis.
Quando
uma praça perde árvores, não perde apenas elementos da paisagem.
Perde
sombra.
Perde
biodiversidade.
Perde
conforto térmico.
Perde
capacidade de absorver água das chuvas.
Perde
qualidade ambiental.
Em uma
cidade que enfrenta temperaturas cada vez mais elevadas devido às mudanças
climáticas e à redução das áreas verdes, a derrubada de árvores não pode ser
tratada como um detalhe técnico.
As
árvores urbanas são infraestrutura ambiental.
Prestam
serviços ecológicos essenciais.
Protegem
a saúde da população.
Além
disso, espaços públicos como a Praça Luíza Távora cumprem uma função social
insubstituível. São lugares onde pessoas de diferentes origens se encontram,
onde acontecem feiras, atividades culturais, manifestações artísticas e
experiências de convivência democrática.
A
destruição ou descaracterização desses espaços empobrece a vida urbana.
Minha
crítica não é à construção do metrô.
Minha
crítica é à ausência de uma visão integrada de planejamento urbano.
Por que
ainda insistimos em projetos que colocam desenvolvimento e meio ambiente como
adversários?
Por que
não planejar soluções capazes de conciliar mobilidade, preservação ambiental e
uso social dos espaços públicos?
Diversas
cidades do mundo demonstram que isso é possível. Estações subterrâneas,
adaptações de traçados, transplante responsável de árvores quando tecnicamente
viável, compensações ambientais robustas e projetos paisagísticos
participativos são alternativas que precisam ser consideradas.
Mais do
que isso, a população deve ser ouvida.
Uma praça
pertence à cidade.
E a
cidade pertence aos seus cidadãos.
Qualquer
intervenção de grande impacto deveria ser precedida por audiências públicas
amplas, divulgação transparente dos estudos ambientais e apresentação de
alternativas técnicas comparadas.
A
participação popular não é obstáculo ao desenvolvimento.
É
condição para que ele seja legítimo.
Por isso,
considero que o Governo do Estado e os órgãos responsáveis deveriam assumir
alguns compromissos fundamentais:
Divulgar integralmente os estudos
de impacto ambiental e urbanístico da obra;
Garantir audiências públicas com
participação efetiva da população;
Avaliar alternativas de
engenharia que reduzam a supressão de árvores;
Realizar inventário arbóreo
detalhado e público;
Garantir compensação ambiental
superior ao número de árvores eventualmente removidas;
Preservar os espaços de
convivência, lazer e cultura existentes;
Criar mecanismos permanentes de
monitoramento social da obra.
O século
XXI exige que abandonemos modelos de desenvolvimento baseados na destruição dos
bens comuns.
Uma
cidade inteligente não é aquela que apenas constrói mais infraestrutura.
É aquela
que consegue combinar mobilidade, sustentabilidade, cultura e qualidade de
vida.
A Praça
Luíza Távora é muito mais do que um espaço físico. Ela representa uma ideia de
cidade. Uma cidade onde ainda é possível caminhar sob a sombra das árvores,
encontrar amigos, participar de atividades culturais e experimentar a
convivência urbana.
Se o
metrô é necessário, e acredito que seja, ele precisa ser construído sem
transformar a praça em mais uma vítima da expansão do concreto.
O
verdadeiro desafio não é escolher entre transporte público e meio ambiente.
O
verdadeiro desafio é construir uma Fortaleza capaz de ter ambos. Porque uma
cidade que sacrifica suas árvores, seus espaços públicos e sua memória em nome
do progresso corre o risco de descobrir tarde demais que o desenvolvimento sem
qualidade de vida é apenas outra forma de empobrecimento coletivo.
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