Trilhos para o Futuro: por que defendo um Ceará conectado por metrôs, VLTs e trens

 

Sempre fui apaixonado por trens. Talvez porque os trilhos carreguem algo que o automóvel individual nunca conseguiu me transmitir: a ideia de coletividade. Um trem não serve apenas para transportar pessoas. Ele conecta vidas, democratiza cidades, reorganiza economias, aproxima culturas e reduz desigualdades territoriais.

Por isso, sempre defendi a ampliação do metrô, dos VLTs e das ferrovias no Ceará. E não falo apenas como alguém encantado pela engenharia ferroviária. Falo como alguém que observa diariamente o sofrimento urbano produzido por um modelo de mobilidade baseado quase exclusivamente em ônibus superlotados, motocicletas precarizadas e carros individuais que transformam Fortaleza numa máquina de engarrafamentos, poluição e exaustão emocional.

Eu sonho, e considero plenamente possível, uma Região Metropolitana de Fortaleza integrada por metrôs e VLTs modernos, acessíveis e eficientes. Uma rede que ligue o Centro ao Papicu, Messejana, Siqueira, Conjunto Ceará, Parangaba, Caucaia, Eusébio, Aquiraz, Maracanaú, Pacatuba e Itaitinga de forma rápida, segura e digna.

E vou além: acredito que o Ceará deveria reconstruir sua malha ferroviária estadual, conectando Fortaleza a cidades como Sobral, Camocim, Quixeramobim, Iguatu, Crateús e Juazeiro do Norte. Muita gente acha isso utopia. Eu acho atraso não pensar nisso.

O próprio Estudo Nacional da Mobilidade Urbana, desenvolvido pelo BNDES, já aponta propostas concretas de expansão metroferroviária e de VLTs para a Região Metropolitana de Fortaleza nas próximas décadas. O estudo prevê mais de 121 quilômetros de expansão em sistemas de transporte coletivo, incluindo novas linhas de metrô, BRTs e VLTs. Há previsão de extensão da Linha Leste até o Papicu, novos trechos ligando bairros periféricos e integração com municípios metropolitanos. Isso mostra que não estamos falando de fantasia. Estamos falando de decisão política.

O Ceará cresceu. A Região Metropolitana cresceu. O Eusébio praticamente explodiu demograficamente. Caucaia tornou-se uma potência populacional. Maracanaú consolidou-se como polo industrial. Aquiraz se fortaleceu economicamente com turismo, serviços e expansão imobiliária. Mas a infraestrutura de mobilidade continua presa a uma lógica do século XX. Resultado: horas perdidas em deslocamentos desumanos.

O trabalhador periférico é quem mais paga essa conta. A pessoa sai de casa às cinco da manhã para atravessar a cidade em ônibus lotados, lentos e presos no trânsito. Chega ao trabalho já cansada. Volta sem tempo de viver. A mobilidade precária sequestra tempo de vida. E tempo também é justiça social.

Quando vejo cidades europeias, asiáticas e até latino-americanas investindo fortemente em ferrovias, fico pensando como o Brasil abandonou seus trilhos de forma tão irracional. Durante décadas, desmontamos ferrovias para fortalecer a indústria automobilística e o transporte rodoviário. O resultado é um país congestionado, poluído, caro logisticamente e profundamente desigual territorialmente. No Ceará, isso é ainda mais visível.

Imagino o impacto econômico e social de uma linha ferroviária moderna ligando Fortaleza a Sobral. Ou ao Cariri. Ou a Crateús. Ou ao Sertão Central. Não seria apenas transporte. Seria desenvolvimento regional.

Uma ferrovia Fortaleza–Juazeiro do Norte poderia:

fortalecer universidades;

estimular turismo religioso e cultural;

reduzir acidentes rodoviários;

integrar cadeias produtivas;

facilitar circulação de trabalhadores;

ampliar intercâmbio econômico;

diminuir emissão de carbono;

interiorizar oportunidades.

O mesmo vale para Sobral, Camocim, Iguatu e Quixeramobim.

Além disso, trens modernos poderiam integrar carga e passageiros, reduzindo custos logísticos e fortalecendo economias locais. O interior deixaria de depender exclusivamente do automóvel e do ônibus interestadual.

Mas infelizmente o debate sobre mobilidade no Brasil ainda é muito pobre.

A política costuma pensar mobilidade apenas como abertura de avenidas e construção de viadutos. É uma visão ultrapassada. Quanto mais cidades se expandem horizontalmente baseadas em carros, mais congestionamentos produzem.

O carro individual jamais resolverá o problema urbano.

Precisamos inverter prioridades:

menos dependência automobilística;

mais transporte coletivo de massa;

mais integração modal;

mais mobilidade sustentável;

mais planejamento urbano orientado por transporte público.

E isso exige coragem política.

O estudo do BNDES aponta, inclusive, redução de acidentes e emissões de carbono com a ampliação do sistema metroferroviário. Há estimativas de redução significativa no tempo gasto em deslocamentos e até diminuição de mortes no trânsito. Isso significa salvar vidas, reduzir estresse e melhorar saúde pública. Porque mobilidade também é saúde mental.

Uma cidade onde as pessoas passam três ou quatro horas diárias em deslocamentos tende ao adoecimento coletivo. Irritação, ansiedade, exaustão e perda de convivência familiar tornam-se normais.

Também penso muito na dimensão ambiental. Fortaleza vive crescimento intenso, verticalização acelerada e aumento do número de veículos. Se não houver investimento pesado em transporte público elétrico e ferroviário, caminharemos para um colapso urbano e climático.

O futuro sustentável das cidades passa pelos trilhos. Defendo ainda que essas expansões sejam acompanhadas de políticas urbanas integradas:

habitação próxima aos eixos de transporte;

ciclovias integradas às estações;

parques urbanos;

ocupação inteligente do solo;

cultura e comércio no entorno das estações;

acessibilidade universal;

segurança pública comunitária nos terminais.

As estações poderiam se tornar polos de vida urbana e não apenas locais de passagem.

Também considero fundamental financiamento público robusto. Transporte coletivo não pode ser tratado apenas como mercadoria lucrativa. Países que possuem sistemas eficientes subsidiam fortemente mobilidade porque entendem que ela produz ganhos sociais, econômicos e ambientais muito maiores que o investimento inicial.

O Ceará poderia inclusive buscar:

parcerias federais;

financiamentos internacionais climáticos;

fundos verdes;

cooperação tecnológica internacional;

participação de universidades públicas no planejamento;

estímulo à indústria ferroviária nacional.

Sonho com um Ceará onde um estudante de Quixeramobim possa chegar rapidamente a Fortaleza. Onde um trabalhador de Caucaia atravesse a metrópole sem sofrimento. Onde o turismo ferroviário ligue litoral e sertão. Onde o trem deixe de ser nostalgia e volte a ser futuro.

Porque os trilhos não transportam apenas passageiros. Eles transportam projetos de sociedade.

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