O transporte público como direito: reflexões sobre o novo Marco Legal do Transporte Coletivo
Confesso
que recebo com esperança a sanção do novo Marco Legal do Transporte Público
Coletivo. Em um país onde milhões de pessoas dependem diariamente de ônibus,
metrôs, trens e VLTs para trabalhar, estudar e acessar serviços básicos,
qualquer debate sobre mobilidade urbana é, antes de tudo, um debate sobre
cidadania. Afinal, quem não consegue se deslocar pela cidade também encontra
obstáculos para exercer direitos fundamentais.
Durante
décadas, o transporte público brasileiro foi financiado por um modelo que
considero profundamente injusto: o usuário pagava quase sozinho pelo sistema.
Essa lógica criou uma espécie de círculo vicioso. Tarifas altas afastavam
passageiros; com menos usuários, aumentavam os custos; e, para compensar, as
passagens subiam ainda mais. O resultado foi a perda de competitividade do
transporte coletivo, o crescimento do uso do automóvel e da motocicleta e o
agravamento dos congestionamentos, da poluição e das desigualdades urbanas.
Por isso,
vejo como um avanço importante o reconhecimento de que o transporte coletivo
possui natureza de serviço público essencial e que seu financiamento deve ser
compartilhado pela sociedade. Afinal, os benefícios do transporte público não
se restringem aos passageiros. Cidades com sistemas eficientes reduzem
congestionamentos, emissões de carbono, acidentes e desigualdades territoriais.
Toda a sociedade ganha.
A
possibilidade de utilizar novas fontes de custeio, como publicidade, exploração
comercial de espaços e recursos da Cide Combustíveis, representa uma mudança
relevante. Em muitos países, o transporte coletivo é financiado por múltiplas
fontes, justamente porque sua função social ultrapassa a simples prestação de
um serviço. O transporte público é infraestrutura para o desenvolvimento econômico
e para a inclusão social.
Nesse
contexto, a discussão sobre tarifa zero merece atenção especial. Durante muito
tempo, a ideia foi tratada como utopia. Hoje, diversas cidades brasileiras e
internacionais experimentam modelos de gratuidade parcial ou total, com
resultados variados. A pergunta que precisamos fazer não é se a tarifa zero é
desejável, acredito que ela seja, mas como torná-la financeiramente
sustentável.
Penso que
o princípio deve ser simples: o custo da mobilidade urbana não pode recair
desproporcionalmente sobre os mais pobres. Muitas famílias comprometem parcela
significativa da renda apenas para se deslocar. Em alguns casos, o preço da
passagem torna-se uma barreira ao emprego, à educação e ao lazer. Uma cidade
democrática é aquela em que as pessoas circulam livremente, e não apenas
aquelas que podem pagar.
Ao mesmo
tempo, considero acertada a preocupação do governo com a sustentabilidade
fiscal. Nenhuma política pública se sustenta sem planejamento financeiro
consistente. Entretanto, também acredito que a responsabilidade pelo
financiamento do transporte deve ser compartilhada entre União, estados e
municípios, com mecanismos permanentes e previsíveis.
A
experiência internacional oferece pistas importantes. Algumas cidades financiam
o transporte por meio de taxas sobre combustíveis fósseis, estacionamento,
grandes empreendimentos imobiliários e circulação de automóveis em áreas
centrais. A lógica é razoável: atividades que geram externalidades negativas
contribuem para financiar alternativas mais sustentáveis.
Outro
avanço relevante do novo marco é a definição de padrões mínimos de qualidade.
Não basta ampliar o financiamento se os usuários continuam enfrentando ônibus
lotados, atrasos frequentes, insegurança e falta de acessibilidade. Transporte
público digno precisa ser pontual, confortável, seguro e inclusivo.
No caso
brasileiro, e particularmente no Ceará, vejo a necessidade de avançar ainda
mais na integração metropolitana. Regiões como a Grande Fortaleza exigem
sistemas articulados entre ônibus, metrôs, VLTs e transportes complementares. A
fragmentação entre municípios frequentemente dificulta o deslocamento da
população e aumenta custos.
Também
considero estratégico investir na eletrificação da frota. A transição para
ônibus elétricos e outras tecnologias limpas não é apenas uma questão
ambiental; trata-se de política de saúde pública. Reduzir a poluição do ar
significa diminuir doenças respiratórias e melhorar a qualidade de vida urbana.
Como
alguém que acredita no direito à cidade, vejo o transporte público como muito
mais do que um serviço operacional. Ele é um instrumento de inclusão, igualdade
e desenvolvimento. Uma cidade onde os pobres gastam horas em deslocamentos
longos e desconfortáveis enquanto os mais ricos circulam com rapidez e
segurança é uma cidade que reproduz desigualdades.
Por isso,
penso que o novo marco representa um passo importante, mas não o ponto de
chegada. Precisamos construir uma política nacional de mobilidade que trate o
transporte coletivo como um direito social, com financiamento estável,
integração metropolitana, participação social e compromisso com a
sustentabilidade ambiental.
No fim
das contas, a forma como uma sociedade organiza seus deslocamentos revela muito
sobre seus valores. Se acreditamos em cidades mais justas, democráticas e
sustentáveis, precisamos colocar o transporte público no centro do projeto de
desenvolvimento. Porque o direito de ir e vir não deveria depender do tamanho
da carteira, mas da condição de cidadania.
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